Em Apocalipse Now, o genial filme de guerra realizado por Francis Ford Coppola, inspirado, como é sabido, no livro de Joseph Conrad, O Coração das Trevas, ao protagonista, capitão Willard, é proposta a missão de terminar com o comando, a todos os títulos, extraviado, do coronel Kurtz.
Kurtz é acusado de ser um assassino, apesar de no seu sector o Vitecong ter sido reduzido à mínima expressão. Pois bem, interroga-se Willard se no meio de uma guerra completamente fora dos padrões clássicos, mal conduzida, exorbitada em termos militares, por parte dos norte-americanos, no âmbito do que deveria antes ser uma acção de contra-subversão judiciosa, faz algum sentido acusar alguém de assassínio? A Willard parece-lhe ser a coisa mais louca alguma vez ouvida, porque é como querer multar os pilotos por excesso de velocidade nas 500 milhas de Indianápolis.
Na verdade, tem Willard razão e não tem. Porque se na guerra nem tudo vale, sob pena de ascensão aos extremos, naquele caso particular, como quiçá em todos os demais, no meio da violência desatada, do homicídio generalizado que é a guerra, particularmente se pensarmos no empenhamento de meios possíveis e na ingente mobilização estratégica de recursos no século XX (superando em muito a dimensão tão-só militar), as reflexões de Willard não são de todo descabidas.
Ainda hoje não há uma resposta cabal, se é que alguma vez haverá, para dar ao perplexo capitão da 173ª Brigada Aerotransportada, apesar de já habituado a patrulhas de longo raio de acção, e sobretudo, a operações clandestinas com a CIA.
Está em causa, ao mesmo tempo a malignidade da guerra e a sua complexidade. Ou melhor, a complexidade por via da malignidade.

Boas Leituras!